Davi Damião. Os dengos do guarda civil
| Reprodução O guarda civil metropolitano Davi Damião dos Santos, 40, morto por um colega no dia 2 de maio |
Diego Salmen
Terra Magazine publica ao longo desta semana a série "Brasil: guerra urbana" para mostrar as faces ignoradas da violência. Em 30 anos, foram mais de 1 milhão de homicídios registrados. As reportagens contarão as vidas esquecidas de dez brasileiros que não tiveram a chance de concluir desejos ínfimos. O extraordinário cotidiano de homens e mulheres comuns. Nesta segunda-feira, 29, publicamos a oitava história. A de Davi Damião.
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1988. Davi, 19, imigrante nordestino na loteria urbana de São Paulo. Partiu de Sertânia, no agreste pernambucano.
2009. Davi, 40, guarda civil na capital paulista. Morto por um colega de trabalho numa base do bairro de Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo.
Na infinidade de laços de parentesco, era filho de Josefa e Argemiro, irmão da Elisabete, da Arlete, do João, da Adriana e da Eliane. Marido da Irene, pai da Bruna e da Letícia. Padrasto do William. Gordinho chorão, meio dengoso, Davi Damião dos Santos era o mais chegado ao pai, veterinário em Sertânia.
Gramou uma infância modesta em Pernambuco, mas não pertence à leva de retirantes atingidos pela seca. Uma criança tranquila "até demais", nas palavras da irmã Arlete. Os pais nunca precisaram recorrer a métodos mais duros para educá-lo.
Gostava de jogar bola na rua e não perdia um episódio da antiga versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo. O ato de assistir TV requeria, porém, um preparo especial na casa dos Santos. Como ainda eram pequenos, Davi e a irmã não conseguiam alcançar o botão que ligava o aparelho, instalado no alto da parede; para isso, tinham de contar com os préstimos do irmão mais velho, assim que este voltava do trabalho.
Na escola, embora não tenha se destacado, esteve longe de passar por último da classe. Fora da sala de aula, o maior susto ficou sendo um supercílio rasgado durante uma brincadeira de "lutinha" nas dependências do colégio. Cumpriu a obrigação de se formar sem repetir de ano.
Mal superou a fase imberbe, e veio o primeiro casamento. Não lhe apetecia a idéia de que a sua donzela fosse mal-vista na cidade. O matrimônio não durou mais que um ano. Hora de migrar.
Sem dar pelota para a inflação, rumou para São Paulo. Ajeitou-se como servente de pedreiro. A metrópole o recepcionou com passagens incômodas por alojamentos de madeirite. Damião trouxe seus quase 1,90m para uma obra no bairro da Vila Prudente. Em seguida, alugou um quarto e cozinha em Itaquera. Sem mobílias, sofá, coisas básicas.
Vendo de longe o drama da mãe, restou a Davi manter a serenidade no trabalho. Conseguiu um emprego na Philips, em Guarulhos, onde conheceu a tia da futura esposa, Irene. Casaram-se em 1992. Do enlace, duas meninas.
Em meados da década de 1990, prestou concurso público para a Guarda Civil Metropolitana (GCM). A essa altura, já morava com a família em uma casa construída em Cidade Tiradentes. Passou, "com a graça do Senhor"; evangélico, frequentava a igreja Brasil para Cristo - influência da mulher, e até se batizou.
Às vezes sentia-se desconfortável com a profissão. De início, viu uma idosa, dona de um barraco, passar mal durante a reintegração de posse levada adiante pela GCM. Ao chegar em casa, confessou à mãe, aos prantos:
- Essa profissão não é para mim.
"Tinha o coração de manteiga", conta Arlete. Não tardou, no entanto, para que Davi passasse a gostar do ofício. Certa feita, sofreu uma reprimenda por não ter punido um subordinado. Para complementar a renda, foi segurança de bingos nos Jardins, lojas no Itaim Bibi, supermercados na periferia...
Os ponteiros correram; com o movimento deles, as conquistas. O apartamento próprio, na Cohab II, veio em 2006. De volta a Itaquera, iniciou a reforma do antigo sobrado em Cidade Tiradentes; o imóvel ficou para o enteado, então recém-iniciado nas artes da paternidade.
Era um marido afetuoso. Num almoço na última Sexta-feira Santa, foi flagrado dando um beijo (de língua) na esposa, nos fundos da casa da mãe. A dona da residência o repreendeu. Ouviu em resposta:
- Tá com ciúme? Vem cá que eu te beijo também!
"Davi estava todo dia na casa da mãe. Ela perguntava: você não tem casa não?", diverte-se a irmã Arlete. "Era uma pessoa brincalhona demais. Dava um abraço tão apertado que doía, fosse você homem ou mulher".
Damião foi baleado no dia 2 de maio, enquanto tentava dissuadir um colega de trabalho do suicídio. Já era guarda de Classe Distinta, patente inferior à de investigador. O autor do disparo, que sofria de depressão, foi alvejado por outros guardas, mas sobreviveu.
"Ele acreditava muito no ser humano", diz Arlete. "Tanto acreditou que quando o cara tava com uma PT 340 engatilhada na frente dele, não esperava que fosse morto por ele".
Na família, o vazio do último abraço de urso que não foi dado.
matéria do portal terra
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